Morreu alguém da família? Chama meu tio Paulão

Toda família tem alguém que corre atrás das coisas para o enterro: funerária, cemitério, etc. E o meu tio Paulão é o especialista nesta arte. Mais um Causo do Nei

Vocês se lembram do meu tio Paulão, aquele mesmo do “homem mais gostoso que ele já viu”, no post publicado dias atrás. Então, ele é o ‘especialista’ na família quando alguém morre. Ele que vai atrás de tudo: cemitério, funerária, caixão, etc… Mas em uma destas mortes da família, ele teve trabalho.

Um dos primos da minha mãe faleceu. A mãe dele, obvio, ligou para o Paulão.

– Paulo, o Valdir faleceu. Você me ajuda?

O ‘especialista’ da família não teve como escapar dessa. Foi atrás das coisas. Era uma sexta-feira. Primeiro Paulão foi até a casa da tia buscar as roupas para colocar no falecido. Um terno. Foi quando a tia abriu a bolsa e pegou dois cheques assinados, em branco, e deu para o Paulão:

– Paulo. Estes cheques são para as despesas.


Primeiro passo. Vestir o falecido. Foram lá e colocaram o terno.

Segundo passo. A escolha do caixão. Segundo meu tio, são três os modelos: barato, mais ou menos e os caros. Paulão sempre vai na coluna do meio. Só que neste momento tinha um outro primo acompanhando o Paulão. Veio lá do interior. Metido a rico. Sapato de couro de sebo da pica do tatu. Todo metido. Quando ele viu o Paulão escolhendo o modelo do ‘meio’, ficou indignado:

– Não. O Valdir merece o melhor. Ele sempre teve tudo de bom!

– Mas é muito caro. Não sei se vamos ter o dinheiro para isso tudo – retrucou Paulão.

– Não. Ele merece. Pode pegar o mais bonito que acertamos isso.

Escolhido o caixão da coluna três (o mais caro) foram pagar a conta. Detalhe: queriam encher de flores, coroas, arranjos, etc. Paulão pediu apenas uma flor, um detalhe, etc. Senão ficaria muito caro.

Na hora de acertar a conta, o primo metido a rico saiu de perto e deixou Paulão sozinho no caixa. Foi quando ele percebeu que dali não sairia nada. Abriu a bolsa, pegou um dos cheques assinados e passou para pagar a conta.

Foi quando o atendente da funerária começou o dialogo:

– O senhor esta de brincadeira comigo?

– Porque?

– O senhor está me dando um cheque do falecido????

Meu tio observa e viu que minha tia deu duas folhas de cheques do Valdir, que acabava de morrer.

– Não tem problema. Tem dinheiro na conta. Pode depositar.

– Nem pensar. E se voltar? Vou cobrar quem? Vou no cemitério? Se não pagar não leva o caixão!

Meu tio pegou um cheque dele e pagou o caixão.

Outro problema. O falecido queria ser cremado. Mas não deixou este desejo por escrito. Então teriam que arrumar a assinatura de três médicos para realizar a cremação. Dois médicos da família assinaram. Faltava um. Liga de lá, liga de cá e nada. Foi quando o primo rico e metido entrou na conversa de novo:

– O pai dele era do Exercito. Era um grande comandante. Vamos até lá que conheço um médico.

Foram para o Exercito. Chamam o tal médico Quando ele aparece, o primo rico e metido some de novo e deixa o Paulão com a bucha:

– Então o senhor precisa da minha assinatura para poder cremar o falecido?

– Sim senhor. Só falta uma assinatura – disse Paulão

– E o senhor era próximo do falecido?

– Não senhor

– Convivia com ele diariamente?

– Não senhor

– Sabe bem da vida dele?

– Não senhor. Nos víamos nas festas de fim de ano, de família.

– Então você não sabe muita coisa dele?

– Não senhor.

– Nem eu. E você quer que eu assine um documento destes!? E se um dia precisam exumar o corpo? E se aparecer alguém reivindicando algo? Não pode porque foi cremado. E a minha assinatura neste documento. Fora daqui!!

Tomou comida de rabo do médico do Exercito.

O falecido – com seu caixão de ouro – já estava no velório. E nada de arrumar a terceira assinatura. Foi quando um detalhe chamou a atenção do Paulão. Chegou a turma de faculdade do falecido. Colocaram uma enorme bandeira da faculdade sobre o caixão. Pronto, poderia ser o caixão pobre e feio que ninguém iria ver, já estava coberto pela bandeira. E pior. Depois iriam cremar!

Apareceu um médico:

– O senhor que é o responsável pelo enterro?

– Sim senhor

– Então, vamos ali no quanto.

– Vocês precisam da assinatura para cremar né?

– Isto mesmo Doutor.

– E é você mesmo que vai ‘acertar’ isso comigo?

– Sim sou eu.

– Ok. Assino.

O médico coloca o carimbo dele, assina e dá o valor. Meu tio tira o cheque assinado da bolsa.

O medico percebe:

– O cheque do falecido??? Mas tem fundo?

– Sim tem. Tem dinheiro na conta, não tem problema.

– Não mesmo, devolve este papel assinado.

Com medo de perder a terceira assinatura, lá vai outro cheque do Paulão.

Velório encerrado, e o caixão de quase 1 milhão de dólares estava indo para a cremação. Neste meio termo, Paulão foi até a tia, e muito honesto disse o seguinte:

– Tia, o cheque do seu filho ninguém aceitou. Olha eles aqui.

E a tia pegou de volta as folhas assinadas.

Fim do enterro.

Na hora de ir embora a tia veio até o Paulão:

– Muito obrigado Paulo. Que Deus lhe pague tudo!

Na hora acendeu a luz de alerta no Paulão. Pensou: Deus lhe pague???? Como assim? E o caixão mais caro? E a assinatura do médico picareta?

Não quis cobrar a mãe triste que acabava de cremar o filho. Foi embora para casa com a cabeça quente.

Passou o sábado e o domingo inteiros pensando nos cheques que cairiam na segunda-feira. Não conseguia parar de pensar. Foi quando no domingo a noite veio o telefone salvador. Era o irmão do falecido.

– Paulo, passa para nós, por favor, quanto foi gasto no enterro. Vamos depositar segunda-feira.

Ufa!

Nunca foi tão difícil realizar um enterro.

Ah, o primo do interior metido a rico sumiu. A vontade do Paulão era fazer o enterro dele. Em um caixão de R$ 199,00 com os detalhes em alumínio. E cremar em um forno de pizza.

Os nomes das pessoas aqui citadas neste texto são fictícios. Poder ser que a coincidência da vida faça com que eu tenha amigos/familiares com estes nomes.

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2 respostas para Morreu alguém da família? Chama meu tio Paulão

  1. zelia disse:

    chorei de rir. foia assim mesmo e com vc enfeitando a estoria , ficou melhor ainda.

  2. Pingback: Meu tio que arruma tudo | Bobo da Corte

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